Após ler os textos indicados pela professora Ingrid Dormien Koudela, escolhi o dossiê “jogos teatrais no Brasil: 30 anos”, por ser um texto bem interessante e de informações concretas relacionadas à pesquisa dos jogos teatrais. Além do mais, tive a oportunidade de vivenciar os jogos nas aulas apresentadas pela professora, o que favoreceu no enriquecimento da minha aprendizagem e também por ter relação com o meu trabalho.
Como trabalho com educação infantil, me vejo envolvida em situações de improviso com as crianças ora nas brincadeiras do faz de conta, ora em situações planejadas mas que acabam tomando forma em outro contexto que não estava planejado, mas a experiência se torna tão rica e emocionante que deixo acontecer.
Foi assim que aconteceu no jogo do improviso entre crianças de 4 anos; um menino era o líder do grupo, o “jogador”. Ele iniciava a fala e os outros o seguiam.
Jogador: Vamos embora, o lobo está vindo! Ele vai nos comer.
Seguidores: Vamos sim, para onde?
Jogador: Para casa, lá ele não entra.
Seguidores: Vamos então.
Jogador: Precisamos pegar as nossas coisas, as roupas e as crianças.
Seguidores: É mesmo, temos muitas coisas...
Jogador: Depressa pessoal, precisamos correr, ele está chegando!
Seguidores: Vamos, vamos todos!
Jogador: Vamos ficar bem quietos, senão ele pode ouvir.
Seguidores: E se ele nos achar?
Jogador: A gente foge outra vez.
Seguidores: Então vamos ficar bem quietinhos.
Jogador: Estou escutando ele chegar, vamos correr outra vez.
Seguidores: Sim, vamos correr!
Enquanto eles corriam de um lado para outro eu, como expectadora, sentia um envolvimento entre as partes atuantes como se eles estivessem num palco representando. Quando o jogador disse “Vamos pegar nossas coisas, roupas, nossas crianças!”, eles agarraram tudo pela frente; lençóis que eles improvisaram como suas camas, caixas que eram suas casas e os filhos que eram as bonecas que cada um levava embaixo do braço.
Durante os estudos, entrei em contato com idéias de vários autores, entre eles Viola Spolin, que disse que “todos são capazes de atuar.” Segundo o artigo “Apresentação do Dossiê Jogos Teatrais no Brasil: 30 anos”, “o sistema de Viola Spolin é aberto e permite a integração do jogo, a linguagem como construtivo do desenvolvimento intelectual e afetivo.”
Bertold Brecht, grande ator e teórico do teatro contemporâneo e fonte de pesquisa para qualquer trabalho relacionado a esse assunto, descreveu esse fenômeno em suas teorias de jogos teatrais. Sua teoria diz que não existe separação entre ator e expectador (ator e platéia). Todas as partes são atuantes, como comprovado no trabalho com as crianças.
Através do jogo simbólico as crianças acabam transportando a realidade para o lúdico e construindo uma simbologia característica para a idade. A intenção focada é o prazer pela brincadeira, o jogo da experimentação e a espontaneidade, como no artigo Dossiê: “longe de estar submetido a teorias, técnicas ou leis, o jogador se torna artesão de sua própria educação.”
O jogo teatral se desenvolve imperceptivelmente a partir do jogo simbólico coletivo. No jogo teatral continua a existir a satisfação das necessidades próprias (subjetivas), mas a criança procura adaptar aquilo que pensa e sente à realidade objetiva.
A partir das aulas práticas apresentadas pela professora Ingrid procurei modificar minha prática de trabalho e transformar a brincadeira em algo muito mais significativo e construtivo para as crianças. Em outros momentos,
não dava tanta importância aos gestos e a espontaneidade delas enquanto brincavam. Agora, tenho outro olhar e procuro estar atenta às ações delas.
Com base nos estudos e pesquisas comecei modificando também meu planejamento de aula. Tenho observado o quanto se tornou importante a minha participação nas brincadeiras junto com as crianças, porém, mesmo iniciando o jogo propriamente dito, sinto que eles também sabem conduzir o jogo de forma prazerosa e expressiva sozinhos.
Segundo Jean Piaget, em “A formação do símbolo na criança”, “ o jogo simbólico não atinge sua forma final de imaginação criadora enquanto não é integrada ao pensamento. Saindo da assimilação, que constitui um dos aspectos da inteligência inicial. O simbolismo desenvolve inicialmente uma assimilação em uma direção egocêntrica; com o duplo progresso de uma interiorização do símbolo em direção a construção representativa e um alargamento do pensamento conceitual, a assimilação simbólica é reintegrada ao pensamento, na forma de imaginação criadora”. Isso se relaciona aos trabalhos com os alunos e aos conceitos brechtianos.
De acordo com o “Dossiê”, é pertinente quando é relatado no texto: “Outro tema que surge de forma recorrente é a do professor artista, ou seja, além de mediador esse professor desenvolve projetos com seus alunos na perspectiva da construção e experimentação de forma artística.” No decorrer deste ano, tenho aplicado os jogos teatrais aprendido nas aulas práticas da professora Ingrid com meus alunos e percebo o quanto isso tem mudado e enriquecido o conteúdo das minhas propostas e atividades.
A teoria de Bertold Brecht não visava aos atores profissionais, mas às pessoas comuns; pretendia, assim, utilizar o teatro como um instrumento de conscientização social sem ter a pretensão de realizá-lo como espetáculo.
Quando o professor e aluno atuam como atores, improvisando ações e gestos, manifestando espontaneidade e corporeidade estão incorporando diretamente esta ideia.

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