PÓS GRADUAÇÃO
ANA LUCIA ROCHA DOS REIS
BIANCA
CAMILA dos santos RIBEIRO
CaROLINA Macedo Guastaferro
CIBELE maria moura SCHIAVO
JULIANA pereira dos santos
LAISE da costa GRANDIZOLI
LAIZ de chirico GUERRERO bispo dos santos
LILIAM da costa GRANDIZOLLI
MAGNA Ivone a. s. silva
POSSIBILIDADES DE MEDIAÇÃO EDUCATIVA NA OBRA SEM TÍTULO (PAR PERFEITO), DE FELIX GONZALEZ-TORRES
São Paulo
2010
ANA LUCIA ROCHA DOS REIS
BIANCA
CAMILA dos santos RIBEIRO
CaROLINA Macedo Guastaferro
CIBELE maria moura SCHIAVO
JULIANA pereira dos santos
LAISE da costa GRANDIZOLI
LAIZ de chirico GUERRERO bispo dos santos
LILIAM da costa GRANDIZOLLI
MAGNA Ivone a. s. silva
| | Trabalho de Pós-graduação apresentado ao curso de Apreciação de Obras de Arte, ao Centro Universitário Mariantonia, como requisito parcial. |
POSSIBILIDADES DE MEDIAÇÃO EDUCATIVA NA OBRA SEM TÍTULO (PAR PERFEITO), DE FELIX GONZALEZ-TORRES
Docente: Dra. Denise Grinspum
São Paulo
2010
Introdução
Arte não é enfeite. Arte é cognição, é profissão, é uma forma diferente da palavra para interpretar o mundo, a realidade, o imaginário, e é conteúdo. Como conteúdo, arte representa o melhor do ser humano.
(Barbosa, 1999:4)
A arte está presente em nosso cotidiano. Porém, estamos todos preparados para percebê-la como ferramenta interpretativa da sociedade e do ser humano? Ver um objeto artístico vai além de observar suas características formais, é preciso estabelecer relações com o contexto histórico-social da obra, as intenções do artista e nossas vivências pessoais para fruí-la de maneira mais completa e profunda.
É papel do arte-educador, seja ele professor de escolas tradicionais ou instrutor de museus, auxiliar o observador na busca pelo entendimento e percepção das obras de arte. Cabe a ele preocupar-se em instrumentalizar seu público da maneira mais completa possível, buscando sempre ensinar como ver uma obra de arte, senti-la, entendê-la e não apresentar fórmulas prontas e simplificadoras de análise dos objetos artísticos.
Neste trabalho, nos dedicamos a formular uma proposta de leitura e mediação para educadores, utilizando o trabalho apresentado na 27ª Bienal de Artes de São Paulo, realizada em 1996, desenvolvido pelo artista plástico Felix Gonzalez-Torres. Com isso, pretendemos apresentar uma forma criativa de formular uma aula de artes que envolva o espectador e o incentive a buscar novos conhecimentos no campo artístico.
O plano de atividade se desenvolverá em dois momentos distintos. Na primeira fase, estimularemos a percepção formal, apresentando a obra e discutindo interpretações possíveis. No segundo momento, buscaremos relacionar a obra com outros produtos artísticos e abriremos espaço para a criação e produção dos alunos.
1. Obra e Artista
1.1.O Artista
Gonzalez-Torres nasceu em Guaimaro, Cuba, em 1957. Viveu nos Estados Unidos, onde integrou um grupo de artistas contemporâneos de origem latino-americana ligados ao minimalismo[1]. Seu trabalho freqüentemente faz referência a sua história pessoal, seja através dos títulos ou por meio de analogias que relacionam aspectos das obras a alguma de suas vivências.
O artista teve contato com diversos teóricos e artistas, sofrendo influência dessas referências em seu processo criativo e em sua obra. De Bertolt Brecht, Gonzalez-Torres absorveu a idéia de que a experiência artística deve romper com a representação e ser uma experiência do pensamento. È possível também estabelecer relações entre suas obras e a de Walter Benjamim, sobretudo, os conceitos sobre a arte e a relação com a reprodutibilidade técnica. O artista construiu trabalhos que podem ser replicados indefinidamente, nos quais as idéias de original e cópia se sobrepõem.
Em seu trabalho também estão presentes críticas ao mercado e ao sistema de arte. Elas aparecem através de obras que tendem a desaparecer do espaço expositivo, tocando em outra questão central de sua produção: a transitoriedade.
Gonzales-Torres era homossexual e, através de seus trabalhos, atuou ativamente pela conquista dos direitos desse grupo. Ele morreu aos 39 anos, em decorrência da AIDS, em Nova York , EUA.
1.2.A obra
A obra Sem título (Par Perfeito), 1987/1990, é composta por dois relógios idênticos em sua forma, cores e dimensões, comprados pelo artista em uma loja de departamentos. Embora, inicialmente, os dois relógios marcassem exatamente a mesma hora, com o passar do tempo houve uma sutil diferença no ponteiro que marca os segundos, o que pode ser observado na figura apresentada no sub-item 3.2., do item 3.Anexos.
Ao longo do tempo, dois relógios perfeitamente sincronizados podem passar a marcar horas diferentes, por não seguirem exatamente o mesmo ritmo. De forma lenta e gradual, frações de segundo a princípio imperceptíveis acumulam-se e modificam a situação inicial de sincronia na marcação do tempo.
Cabe aqui estabelecer um paralelo entre o par de relógios e um par de amantes, bem como pensar na individualidade de cada uma das pessoas envolvidas em um relacionamento amoroso, a despeito de ambas estarem sincronizadas no sentido de seguir juntas. Com o passar do tempo, pode haver falta de sincronia entre eles; para sincronizar os “relógios” há duas opções: ajustar os ponteiros de ambos ou substituir um dos dois.
Par Perfeito discute, assim, a temporalidade da paixão e a necessidade de tolerância nas relações amorosas. O assunto tocado pela obra também pode ser expandido em direção a outras formas de relacionamento afetivo, para além da relação amorosa.
2. O Plano de Atividade
Esta atividade visa trabalhar temas como o tempo e as relações afetivo-emocionais, tendo como público alvo estudantes da Educação de Jovens e Adultos do Ensino Médio (EJA). Apesar da impossibilidade de precisar uma faixa etária, já que este grupo é constituído de pessoas que não tiveram acesso ou não puderam terminar os estudos do ensino fundamental e médio na idade apropriada, acreditamos que o grupo escolhido possui uma vivência e maturidade interessante para trabalhar a temática proposta.
São pessoas que possuem formas de conhecimentos práticos e concepções de mundo cristalizadas, não possuindo conhecimentos científicos básicos ou incompletos. Devido ao insucesso na vida escolar, possuem uma relação negativa com a escola tradicional.
Apesar dos contratempos, buscam por diversos motivos recuperar o “tempo perdido”, na tentativa de re-significar seu mundo através do conhecimento. Acreditamos que com a mediação aqui proposta poderemos alcançar uma participação ativa do grupo, já que o formato aqui proposto diferencia-se da escola tradicional e propõe reflexões ricas, que levam em consideração a vivência de cada participante.
Através das questões propostas traremos à tona para debate a idéia de transitoriedade, sincronia, tempo e seus reflexos nas relações interpessoais. Tentaremos proporcionar reflexões críticas, incentivando os alunos a relacionar suas vivências com a obra.
Esta atividade terá a duração de duas aulas de aproximadamente 45 minutos cada. Na primeira aula, apresentaremos a obra aos alunos e interviremos através de perguntas que buscam aguçar as percepções estéticas. Após esse momento de observação e discussão, os educadores apresentarão informações sobre o artista, a obra e instruirão os alunos a pesquisarem sobre o tema e seus desdobramentos. A pesquisa deve ser trazida na próxima aula.
Na segunda aula, será importante retomar a imagem da obra e relembrar a discussão do primeiro momento, discutindo, logo em seguida, o material de pesquisa apresentado pelos alunos. Em seguida, o educador deverá propor a atividade prática.
2.1. Roteiro de perguntas
1- O que vocês estão vendo?
2- Como eles são?
3- Eles são iguais?
4- Foi feito à mão ou é industrializado?
5- De que material é feito?
6- Os objetos estão completos?
7- Qual são as partes que compõe os relógios?
8- Qual a posição dos relógios um em relação ao outro?
9- Que horas os relógios marcam?
10- No início do processo eles marcavam a mesma hora e por que agora estão diferentes?
11- O que isso significa?
12- É possível relacionar a perda de sincronia dos relógios com a dos relacionamentos pessoais? Como?
13- Em algum momento você perdeu a sincronia com as pessoas com quem se relacionava?
14- Que nome você daria à obra?
2.2.Proposta de Atividade Prática – “Tempo Meu”
A proposta consiste na transformação de um objeto de uso cotidiano, o relógio, em objeto artístico. Partindo da análise e leitura da obra de Felix Gonzáles Torres, Sem Título (Par perfeito), da poesia O Tempo, de Mario Quintana e dos conceitos que foram explorados e discutidos na primeira aula, a atividade prática visa a materialização destas vivências de aula através da produção de um objeto, que irá resgatar e refletir a passagem do tempo na formação da identidade de cada aluno.
Objetivos:
· Apropriação e re-significação de objeto;
· Desenvolvimento do potencial criativo;
· Resgate da memória;
· Busca pela identidade.
Desenvolvimento:
1ª. Etapa – Construção do objeto
Os alunos deverão utilizar um relógio e alterar suas características através da aplicação de materiais diversos, selecionados pelo próprio aluno. Tais materiais devem estar relacionados com a identidade de cada um, portanto irão de alguma maneira refletir as vivências que o aluno considerar terem sido significativas em sua trajetória. O objeto produzido fará referencia a quem o produziu. A composição do objeto terá como base o corpo do relógio que carregado de significados simbólicos, passará a marcar o tempo na vida de cada aluno. A forma com que cada aluno irá compor sua peça é livre. Também ficará ao seu critério dar ou não um título.
2ª. Etapa – Apresentação
Os trabalhos produzidos serão apresentados ao grupo pelo aluno, possibilitando um momento de troca, compartilhando com os colegas um pouco de sua história por meio do objeto. É importante que haja um espaço para comentários e criticas sobre o processo que envolveu a atividade, visando uma avaliação conjunta.
3ª. Etapa – Exposição
Em parceria com o professor os alunos organizarão uma exposição tendo como material expositivo os objetos produzidos na atividade prática “Tempo Meu”.
3. Anexos
3.1. O Tempo, de Mário Quintana.
A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.
3.2.Sem Título (Par Perfeito), 1987-1990, de Felix Gonzalez-Torres.

4. Conclusão
A arte tem papel modificador. Tentamos, com a proposta de mediação elaborada neste trabalho, aproximá-la dos estudantes e educadores. Mais do que simplesmente utilizá-la como ferramenta de ensino na sala de aula, procuramos tratá-la como conteúdo, abordando seu caráter histórico, seu processo criativo e suas diversas possibilidades interpretativas.
Além disso, conseguir relacionar a arte com as vivências de cada aluno incentiva a interação e integração da turma, além de propiciar um novo questionamento interior, desenvolvendo não apenas questões estéticas, mas questões sensíveis. A arte se aproxima do cotidiano dos alunos e professores, possibilitando uma nova construção onde a arte possa estar presente no dia-a-dia de cada participante, de forma conscientizadora e criadora.
Não podemos precisar os resultados da ação aqui proposta, mas acreditamos que trazer a arte para dentro da sala de aula, de maneira não-convencional, incentiva os alunos a procurarem informações sobre o tema, forma espectadores de arte para os museus e apura o olhar e instrumentaliza o aluno para entender o objeto artístico em qualquer contexto.
5. Bibliografia
BARBOSA, ANA M. A imagem no ensino da arte. 4ª. Ed. São Paulo: Editora Perspectiva, 1999.
_________________; COUTINHO, R.J. Arte/ Educação como mediação cultural e social. São Paulo: Editora UNESP, 2009.
Catálogo da 27ª Bienal de São Paulo: Como Viver Junto, São Paulo: Fundação Bienal, 2006.
GADOTTI, Moacir; ROMÃO, José E. (orgs.). Educação de jovens e adultos: teoria, prática e proposta. 8ª. ed. São Paulo: Cortez, Instituto Paulo Freire, 2006.
IAVELBERG, R. Para gostar de aprender arte: sala de aula e formação de professores. Porto Alegre: ARTMED, 2003.
[1] Surgido no final dos anos 50, em Nova York , o Minimalismo é uma tendência nas artes visuais que enfatiza as formas elementares, em geral geométricas, sem teor figurativo, decorativo, expressivo ou metafórico. Caracteriza-se também pelo uso de materiais industriais, como vidro, aço e acrílico. O objeto de arte minimalista, preferencialmente localizado no terreno ambíguo entre pintura e escultura, não esconde conteúdos intrínsecos; é um simples objeto material, e não um veículo portador de ideias ou emoções. Sua verdade está posta na realidade física com que se expõe aos olhos do observador.
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